carnaval belorizontino
arquitetura, cachaçada, design, museu e mascate de maracujá
eu te escrevo essas memórias póstumas de comadre depois de quase três meses do carnaval.
zé, vamo começar que pós festança, eu fiquei mega deprê.
mas aí já não sei dizer se foi pq tive que voltar a trampar depois de 15 dias na cachorrada ou se foi um espirito zombeteiro do carnaval que estava sugando minha energia.
após 12 banhos de boldo e viagens astrais com uma cimitarra afiada, estou percebendo que essa tristeza era mesmo uma saudade do descanso, ao mesmo tempo que uma percepção do quanto o descanso é a maior arma contra o bloqueio criativo.
voltei do carnaval com um vazio enorme no peito, boa parte com saudade de ver homens gostosos vestidos de anjinhos, mas também uma insaciável vontade de criar.
aquele vazio que não preenche até você ver algo que cê criou tomando o sopro da vida e seguindo seu fluxo. talvez nós sejamos mesmo feitos à imagem e semelhança de Deus, pois até agora a única diferença entre eu e ele é que o cara consegue parar pra descansar.
mas eu não sou lá muito católica, então voltando pro tema central: gente pelada na rua e bebida boa.
os dias de carnaval foram dias em que eu pude me encher dessa cosmopolita que é belo horizonte, da pulsante cultura desse grande evento que é 50% cachorrada e 50% baianas ozadas jogando banhos de erva nas ruas pra limpar a energia no fim da festança.

ou fosse mesmo a cultura popular dos que não folgaram no carnaval e viviam suas vidas levando uma calça larga na costureira (com uma faixada art déco sem saber), almoçando no café palhares (mais antigo que o próprio design) ou atravessando a rua (por onde antes passou clara nunes).
falando em clara nunes, eu já adianto: o carnaval passou (rápido demais), mas conversas fiadas sobre a separação de arquitetura e moda com design gráfico não passarás. aqui é papo de beber essa sopa feita com muitas mãos.
por isso que é gostosa.
AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS QUENTÍSSIMAS E DOCES CARNES DO MEU CADÁVER: DALE.
sobre o que vamos falar hoje:
estilo dos "anos loucos": quem ensinou o belorizontino a ser tão foda?
mascate maracujá e o designer por trás das novas embalagens
marinada: identidade do bloquinho mais apertado do ano
casa do baile: pitadas de desabafo
clara nunes, indústria fonográfica, tropicalismo e ensaísmos sobre capas de disco
em 2022, eu me mudei pra bh.
sou do interior, uma roça que acha que é metrópole mas que foi ter um starbucks quando já tinha passado minha brisa de one direction. então quando cheguei nessa grande cidade, me senti a hannah montana antes da fama.
coisas que só caipira pra entender.
enfim, de lá pra cá, muita coisa aconteceu e eu acabei voltando pra minha roça, mas sempre dou um pulo por bh pra rever amigos.
então imagine, as memórias que guardo de bh sempre tem xeque-mate e mineiras bonitas falando arrastado comigo. logo, quando eu volto pra bh, eu me sinto a vanessa urach virando ímola.
chegando na cidade, me hospedei na casa de um amigo querido que me acompanhou na minha época de sainhas curtas e botas brancas.
no outro dia, após a bebedeira de boas-vindas, esse amigo me chamou pra ir com ele fazer companhia no trampo. enquanto ele arrumava o bar e organizava as cervejas do freezer, a gente ia papeando.
jean trabalha na autêntica, uma casa de show babado de belo horizonte. no mesmo lugar onde foi a matriz, um dos inferninhos mais tradicionais de belô.
que, olha que engraçado, já foi um estacionamento.
também foi um cinema gigantesco meados dos anos 50.
aí pensa: como caralhos uma casa de show também foi um estacionamento? sem ver a planta do lugar fica difícil, mas vendo fica pior.
acompanha comigo: hall de entrada pequeno (como todo inferninho) onde mal passa 3 pessoas de lado, quem dirá um CARRO. aí ainda tem bar, camarote… como isso encaixava numa estrutura de estacionamento?
aí cê me diz “comadre, eles devem ter reformado“. e eu te digo: se pá, viu, véi.
o espaço é tombadíssimo, pois abrigou um dos cinemas mais tradicionais da cidade. podem ter mexido e só depois tombaram, sei lá, essas coisa de prefeitura demora mesmo, né?
de qualquer forma, como esse espaço já foi TANTAS coisas, eu não sei te dizer. mas sei te dizer o quanto a primeira planta desse terreno, o cinema santa efigênia, é um espelho de como bh foi virando cidade grande de verdade.
estilo dos “anos loucos”: quem ensinou o belorizontino a ser tão foda?
eu não tenho nenhuma experiência com arquitetura, com exceção de 11 anos montando casas no the sims 4, mas gosto muito de estudar áreas que se ligam com design. meio que tudo se liga com design.
esse olhar de transformar coisas cotidianas em um campo de estudo impacta muito como o designer vê o próprio repertório e as novas possibilidades.
mas você não precisa ser arquiteto pra dar uma volta por belo horizonte e notar o quanto de arte déco tem pelas ruas. e eu me pergunto o motivo.
porra, até uma simples costureira tem um logo 100% arte déco. quem que ensinou o belorizontino tamanha percepção artística? dona teresa que faz apêndice nas minhas calças fez curso de tipografia na plau? que isso, me sinto no distrito 1 de jogos vorazes.
e aí estudando aqui e lá, me deparei com um pdf sobre o estudo das obras de raffaello berti (parente dos irmãos berti?), o arquiteto do cinema santa efigênia, um italiano que chegou aqui pelos anos 30 e morreu nos anos 70 nessa terra abençoada.
entre os anos 20 e os anos 30, a arte déco era febre entre os irmãos do autocad.
enquanto belo horizonte se modernizava e vestia a roupinha de capital oficial de minas (desbancando ouro preto), a arte déco surge como uma forma de unir o progressismo sem romper friamente com o ecletismo1.

esse distanciamento do ecletismo trouxe novas formas geométricas, mais duras, design que era muito aceito pelo governo do getúlio.
aceito não por vargas ser um entusiasta de movimentos artísticos, mas por quê a arte déco também significava baratear custos pro estado: arquitetura menos ornamentada, mídias mais didáticas e progressismo sem ruptura total do tradicional (ou seja, sem precisar “jogar fora” o que já tinha).
e assim, bh é muito novinha. tem 129 anos de existência.
pra propor um novo sistema de signos que identificassem a alta burguesia, ao mesmo tempo que também representassem parâmetros estabelecidos pela estética da máquina é com uma mente de titânio.
claro, não dá pra agradar todo mundo, mas bh se saiu muito bem na tentativa.

e essa primeira modernização aconteceu tem lá seus 80 anos, mais ou menos. é muito pouco tempo.
se bh tem pouco mais de 100 anos e a modernização foi feita há 80 anos, meio que em anos de agência isso é tipo um rebranding que foi lançado há 2 anos. parece muito, mas não é.
e muito por isso, belo horizonte ainda mantém seu arte déco tão vivo. mesmo que, minuciosamente, na faixada de um inferninho que toca brega e que já foi um imponente cinema desse estilo arquitetônico.
por isso eu digo e repito, antes de qualquer coisa, designer é pesquisador. você descobre muita coisa sobre design quando estuda arquitetura, história, política e cachaça.
esse orgulho (consciente ou inconsciente) da estética déco é muito presente no belorizontino. a gente não vê isso só nas faixadas, como vê nas embalagens contemporâneas, principalmente das bebidas.
dessas eu tenho muita bagagem pra falar. não por saber muito sobre embalagens, mas pq bebi umas 20 diferentes no carnaval.
cachaças, mascate maracujá e o designer por trás das novas embalagens
primeiro, o mais importante: essa bebida é uma delícia. meus amigos odiaram, mas eu amei.
é um bitter meio agridoce. traz esse trem de dualidade, o que é traduzido na própria embalagem.
o designer responsável, guilherme drager, cita rené magritte como principal inspiração pra criação da embalagem. muito pelo surrealismo do pintor.
no entanto, antes de andar com a patota do surrealismo na europa, rené era um pintor comercial na década dos 30 pros 40, o que significa que boa parte das suas obras também eram arte déco.
não sei se foi uma inspiração direta, mas supondo que é, é muito doido que a embalagem traduza o dualismo (característica essencial da primeira modernização de bh, né? juntar o progressismo com a tradição, etc) com a arte déco.
é bh numa lata. e representa muito bem os próprios mineiros: gostoso demais.
ÔOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO TREM BÃO.
e falando em trem bão, a gente não podia NÃO falar da mascate.
amada pelos designers e querida pelos cachaceiros, mascate lançou dois sabores novos nesse carnaval: maracujá e framboesa.
review sincero: maracujá tem gosto de ressaca.
meus amigos discordam pois todos preferem esse, mas só quem já deu p.t com balalaica e suco de pózinho sabor maracujá tem medo até de mousse nesse sabor.
já o de framboesa é tão gostoso, mas tão gostoso, que você esquece que tem álcool e só lembra quando acorda suando frio no outro dia.
a arado, estúdio focado no estudo e representação do imaginário rural brasileiro, foi quem colocou as mãos nas embalagens dos novos drinks da mascate.
talvez um dos privilégios de ser mais conhecida entre designers do que entre clientes, é sempre ter outro designer te ajudando com coisas impossíveis.
eu queria muito conversar com o designer responsável pelas embalagens dos novos RTDs da mascate e cacei até no buraco de onde saiu o cão pra achar, nada. foi por um tweet bobo que ele apareceu e foi incrivelmente solícito em tirar dúvidas e fazer uma reunião pra falar sobre.
alerta de fofura: a gente fez UMA HORA de reunião no mesmo período em que ele, secretamente, estava fazendo “equilibrivm“, da anitta. já admirava pelo trabalho mas agora admiro pelo incrível gerenciamento de tempo e por se disponibilizar pra falar sobre seu trampo, numa agenda apertadíssima, com uma designer mais pra estudante do que relevante.
luis matuto, caipira de alfenas, responsável pelas novas embalagens da mascate, pai da arado e designer da xeque-mate desde 2019. o currículo mais rechonchudo do brasil (será que ele tira, pelo menos, R$5.000 limpo?).
por essa longa e familiar história com a mascate (e por ter feito o rebranding da xeque-mate em 2021) ele conta que o processo de criação da embalagem foi natural e que parte do processo de pesquisa foi da ligação com o rum (ingrediente principal nas fórmulas da mascate) e a cachaça dentro da américa latina.
ele precisava que a embalagem fosse chamativa (“gondola-driven” ou seja, que funciona nas gôndolas) e que sugerisse frescor.
nessa busca das ligações da água que passarinho não bebe, ele chega nos tiki bares.
os tiki bares são estabelecimentos temáticos que misturam estética polinésia, com suas estátuas de madeira entalhada, bambus, redes de pesca e iluminação de velas com drinques tropicais à base de rum.
apesar de se alimentarem da estética polinésia, eles não são “de um lugar só”. eles tinham como propósito criar uma fantasia do que é tropical: nas decorações, nos nomes de drinques que evocavam frescor e lugares exóticos (como daiquiri ou mai tai) e isso existia nos states, no méxico, em todo canto.
e a relação dos tiki bares com a américa latina não é direta, mas é importante: o ingrediente principal é latinoamericano. o rum. sem rum, sem tiki bar.
e apesar da estética ser praia, frescor, exagero tropical… meio que bh não tem praia, né? não atoa todo mundo diz que a praia de bh é espirito santo. no entanto, isso não impediu que a mensagem chegasse no receptor (o cachaceiro) com todo seu propósito.
fico feliz quando essas obviedades não são um obstáculo, e talvez eu só tenha encasquetado com isso pois foram anos em firma com a cabeça tão quadrada quanto um lego.
afinal, que folião ia somar que a falta de praia em belo horizonte seria um empecilho para ele sentir o frescor litorâneo que lhe falta? o folião nunca viu o mar? o folião, nesse caso, só não quer gozar gostoso e tomar carvão vegetal pois o carnaval continua amanhã?
eu espero que você não tenha compreendido esse devaneio pois ele é só resultado de uma mente carcomida pela indústria. meu deus, eu realmente sou a hannah montana!!!!!
voltando, é muito bacana saber disso tudo, lendo também a explicação da arado sobre a embalagem (“…o ponto de partida foi uma provocação sensorial: os sentidos querem antes mesmo de a gente querer”):

nessas a gente percebe como o design precisa de fundamento e pesquisa, mas que o bom designer enfia o nariz num livro e tem a habilidade pra comunicar a sensação daquilo que aprendeu.
espero chegar lá, mas se eu não chegar, eu só oro por tempos em que o xeque-mate não chegue a R$15.
pra finalizar o tópico cachaças: minha última lembrança feliz com a mascate foi sua presença no marinada.
nada combina melhor com enfrentar 2h sendo esmagada por gay de calcinha do que álcool docinho.
o marinada, para mim, foi uma experiência cinematográfica. pela primeira vez, pude me sentir como o menino da porteira sendo pisoteada.
saí de lá com muito ódio de leques e com a certeza de que não voltaria pra um bloco tão cheio.
no outro dia eu já estava em outro tão cheio como aquele pois a vida é uma só e minha memória é fraca.
e de fato, minha memória é uma merda, todos meus amigos sabem. mas uma coisa que não consegui esquecer, foi da identidade do bloco.
marinada: identidade do bloquinho mais apertado do ano

o bloco marinada não foi exclusivo pra bh, percorrendo vários estados: pernambuco, bahia, rio, sergipe, ceará. mas clarinho que em bh foi o que mais marcou, talvez por ser a estreia dela na folia de rua do seu estado ou talvez pelas 2h de atraso, a falta de água e gente sendo pisoteada. mas que marcou, marcou!
e como boa parte do show eu estava há pelo menos 1km de distância e não escutando nem vendo nada, o leque distribuído foi o que ficou comigo do inicio ao fim.


falando em leque, eu me racho pensando como que ele chegou às américas como um símbolo de nobreza mas nos festivais, carnavais, e outros vais, ele se tornou um brinde de marca. não que eu me importe com o que era ou o que virou quando estou suando tal qual um porquinho sabendo que vai morrer pra virar cofre de moedas, mas a diferença é que na maioria dos casos, o leque de brinde é só isso: um leque, com um logo, no máximo.
o que eduardo medeiros, designer responsável pela identidade do marinada, fez foi outra coisa. ele transformou o objeto num pedacinho do universo visual do que foi o bloco. você não recebe um brinde, mas um pedaço da festa pra levar pra casa. e eu senti isso por carregar essa porra de leque dentro de uma mochila apertada só pra ter essa recordação pra sempre.
pérolas, jóias, flores, uma estética que faz um beijo gostoso entre a latinidade tão mística da marina com um estilo de design meio kitsch (que se você viu o rebranding do diva depressão vai pegar a essência).
de onde vem o kitsch? esse estilo tem um nome de origem alemã, que veio a partir do verbo kitschen/verkitschen, que significa trapacear, vender uma coisa em lugar de outra. trocar gato por lebre.
ela já estava nos assuntos entre os artistas desde 1860 e nasce como crítica: a indústria imitando o artesanato, a cópia fingindo ser o original. será que como um robô tentando fazer design? rs.
walter benjamin, grande entusiasta do tema, afirmava que “esse estilo visa trazer gratificação instantânea ao espectador sem exigir investimento intelectual“, ou seja, um estilo que permite interpretações confortáveis e entendimento direto de formas de arte consideradas superiores.
e o que era “acusação“ virou o conceito principal, hoje o kitsch não tenta mais passar por outra coisa: ele é o exagero e a contravenção, mor!
e por que eu digo que a identidade do marinada é meio kitsch? porque kitsch se reconhece por quatro operações: imitação (de identidade de luxo, como as pérolas e joias do leque), exagero (nas cores, texturas e proporções, como deu pra ver em toda a identidade), deslocamento de contexto e perda da função original. os dois últimos não encaixam, então é kitsch pela metade.
no verso do leque, o que parece caótico é também bem calculado.
em peças de comunicação de evento ao vivo, lidas em movimento e a distâncias variáveis, a hierarquia tipográfica precisa ser agressiva o suficiente pra guiar o olho antes que ele se distraia.
o nome da artista em maior escala, seguido do festival e da data, cria o que no design se chama de entry point: o ponto de entrada do olhar que guia o restante do conteúdo.
você entra pela marina sena, passa pelo festival sensacional, pousa na data. esse é E-XA-TA-MENTE o caminho que o designer queria que você percorresse. a informação pode ser densa, mas a leitura tem que ser guiada!!!!! chave, né?
e o que me parece mais divertido no trampo do edu é que ele usa consegue fazer uma ligação entre loucura e padronização. nem sempre os opostos se atraem, mas no carnaval eles se pegam.
todas as peças produzidas pro carnaval com a identidade do marinada conversam entre si e constroem uma memória do que foi aquele dia no mineirão. e mesmo no ápice do seu exagero, isso não é nem anti-design. o que edu construiu é um maximalismo dentro dos grids certinhos. essa é a diferença entre uma identidade que grita e uma que comunica.
e faz sentido partir de uma identidade que comunica, mesmo que aos berros, pra algo que só dá pra ouvir quando se está em silêncio?
casa do baile: pitadas de desabafo
não sei, mas é que tinha uma coisa que eu queria fazer nesse carnaval que não dava pra fazer com ninguém. não é nem que fosse íntimo demais, é que é o tipo de coisa que cê precisa fazer só você e deus. talvez fosse íntimo demais colocar deus no meio.
a ida ao museu de arquitetura e design, que fica na pampulha.
primeiro que o largo da pampulha não atoa é um patrimônio cultural.
uma lagoa imensa e vertebrada que os ossos rangem quando você conversa com ela. dá pra escutar ela respondendo se você for atento e principalmente, se estiver emocionado com a beleza dos pássaros banhando no seu colo.
a casa do baile (como chama o museu) fica bem na orla da pampulha. você pode apreciar o lago num banco de ladrilhos desenhados, com o sol lambendo seu couro cabeçudo.
a casa nasceu como um restaurante dançante popular e em 2002 virou referência em estudos de niemeyer e kubitschek. se você andar devagarinho pelo entorno, ainda dá pra escutar o propósito inicial gemendo nos vincos.
foi emocionante e confesso que chorei, sentada lá, observando o que era provavelmente o lugar que deus separou pra mim, mas que eu não pude ficar.
enfim, toda a áurea da casa do baile tem uma atmosfera sensorial, pois foi projetada para tal. olha como, até aqui, falamos de design mas muito de arquitetura.
não me desce o papo de que ambos se convergem ou são inimigos, sendo que um argumenta o potencial do outro.
a arquitetura me promoveu aquele momento singelo de afeição e memória, afinal, arquitetura serve para criar espaços que atendem as necessidades humanas e nem sempre as necessidades são sobrevivência, muitas são emocionais.
tal qual o design, mas sinto que não estamos maduros o suficiente pra essa conversa.
ao entrar na casa, me deparo com trans:paisagem, do fotógrafo leonardo finotti.
a exposição usa a fotografia pra criar um diálogo sobre como a arquitetura não só existe, como é habitada: do modernismo brasileiro às lojas e centros onde as pessoas usam o espaço inconscientemente, sem dar o estalo de que estão dentro de uma ideia que alguém teve antes delas.
achei muito chave a estrutura dessa loja, chamada coven, que fica no bairro lourdes. claro que fica no bairro lourdes.
a coven é uma marca mineira de tricô e o projeto da loja, assinado pelo marcelo alvarenga, tem uma grande grade de aço cobrindo toda a fachada. de imediato você não vê a vitrine, cê vê a grade.
e eu me pego dando risadinhas tal qual um ratinho após roer roupas, ao imaginar que se arquitetura fosse design, será que teria um chatão lá no fundo pra informar que isso não é funcional, que as grades dificultam a leitura da vitrine?
seria o mesmo chatão que no design reprova baixa legibilidade em projetos que cabem essa brincadeira. não, mas design é função! não tem espaço pra “brincar”. não, por favor, pare de ser feliz na minha frente. pare agora, estou queimando.
será que os arquitetos também passam por isso ou eles são mais maduros que nós?
o espaço da exposição é pequeno, o que é bom já que cê faz o que precisa fazer sem se alongar. saí de lá antes de dar uma hora, mas saí com várias minhocas na cabeça.
de lá, fui correndo pro museu de arte, que fica uns 30 minutos a pé, atravessando todo o entorno do largo da pampulha. não pesquisei nada sobre, fui no pelo pra viver a adrenalina de caminhar, refletir e presenciar uma enorme exposição belíssima.
só pra chegar lá e descobrir que tá fechado pra manutenção desde a pandemia. então o que posso oferecer é essa foto da faixada, com essa bonitona tomando um sol (sem roupas! confira agora!):


talvez esse museu de arte da pampulha esteve mais tempo aberto quando era um cassino, do que esse tempo todo como museu.
mas como só me restou admirar a faixada e fumar um cigarro fúnebre, eu peguei um uber até o MUMO, museu de moda de bh.
agora estamos pegando a rota final para o fim do artigo, fechando com chave de ouro a exposição que engloba tudo isso: clara nunes, eu sou a tal mineira.
clara nunes, indústria fonográfica, tropicalismo e ensaísmos sobre capas de disco
eu gostei muito do timing da MUMO: usar a semana do carnaval de belo horizonte pra falar de uma mulher que nasceu em caetanópolis, saiu de minas pra conquistar o samba carioca e voltou como uma das vozes mais importantes do brasil (disputa acirrada com guilherme briggs).
boa parte da trajetória da clara foi com o samba carioca, com a portela, onde ela soltou muito dos seus discos, desfilou e usou como palco para falar das suas raízes profundas com o candomblé.
é importante que a gente investigue a vida de clara, antes de inundar nos aspectos que mais competem à nós, designers. só assim a gente não minimiza sua arte ao que é bonito, legal, feio ou ultrapassado, por fim entendendo de onde veio e para onde foi.
clara nasceu em meio à folia dos reis, que mais para frente, percebemos como moldou seu senso artístico. depois, mais velha, se muda para belo horizonte onde atua como tecelã.
quando é descoberta por jadir ambrósio (autor do hino do cruzeiro e um dos maiores rivais que eu e alexandre kalil já compartilhamos), passa a ir para concursos e começa a ser conhecida pelo seu gogó e a formosura das suas vestes, essas patrocinadas pela fábrica em que foi tecelã.
após estourar no mercado, clara viajava e transformava cada lugar em estudo de campo. a gente cria moodboards, movidos a café três corações, na frente de uma tela. clarinha fazia isso viajando. quem pode, pode, né?
e tem uma coisa que me interessa mais do que qualquer outra quando visito museus: os objetos que foram feitos pra nerdolas desesperados por design editorial: os jornais, as capas de disco, os contratos.
e foi nessas que eu fui com deus.
vamos lá, como de praxe: o que eu vou fazer agora não é uma análise acadêmica. eu nem tenho graduação, todos sabem que faculdade é para os franguinhos, eu quero saber de fumar cigarro e desenvolver burnout.
esse foi um dos primeiros vinis de clara, se não o primeiro, não sei dizer. carnaval na onda, lançado em 66, pela odeon.
nos anos 60, o design era tipicamente industrial/funcional. a própria odeon com seu logo sendo um templo greco-romano transmite o que a gravadora visava: tradição, solidez, prestígio cultural. não se engane com a nossa visão contemporânea do que é tradição no design, pois a odeon era uma gravadora gigantesca em uma época que a globo completava 1 ano de vida.
o mercado fonográfico brasileiro era, em grande parte, operado por filiais de multinacionais. a odeon era da EMI, firma britânica.
e essas empresas chegavam com o template de capas já pronto, desenvolvido na gringa, testado na gringa, aplicado aqui com o mínimo de adaptação possível. não porque fossem preguiçosas (eu também não vou dar esse voto de confiança pra gringo), mas porque replicar era barato.



o brasil ainda engatinhava numa industrialização tardia onde produto era função. não tinha motivo pra investir grana em algo que era só pra ser uma proteção para o disco.
sem contar o golpe de 64, que azedou ainda mais o ambiente: a indústria fonográfica comercial foi ficando conservadora no visual pra não chamar atenção, pra não dar bandeira.
muito por essas e outras o tropicalismo bomba mais para frente, mas esse é outro papo.
voltando pra análise da capa: a fileira de logos na parte inferior (london, WB, capitol, etc) traduz uma parada importante: poder corporativo. isso significava legitimidade e alcance internacional, pois pro consumidor brasileiro da época, ver o logo da capitol (gravadora dos beatles!!!!) ao lado do produto dava imensa credibilidade.
e ainda, cê reparou que não há foto de clara na capa?
“será que ainda não era moda?” “será que já era algo que existia na época?”.
na busca de um estudo mais profundo sobre capas de discos no brasil, encontrei um artigo de assis, silva e martins2. ali eles narram que nos anos 40 já se usavam fotografias dos artistas nas capas, mas 1966 ainda carregava a herança onde a gravadora e o título da música eram os protagonistas visuais, não o rosto do artista.
e essa mudança estrutural que tornaria o rosto do artista central nas capas veio atrelada à tv, ainda nos 60, quando essa assumia o papel de grande mídia conseguiu transformar a publicidade dos artistas, tornando suas imagens como “glorificadas” ou “endeusadas”.
se você não entende o impacto disso, saiba que isso ainda ressoa. não atoa eu glorifico a imagem de artistas que gosto, mesmo que sejam normais e muitas vezes bem vacilões, como todo mundo.
tudo isso pra divagar de como a capa do primeiro disco da clara não foi inovador e rico como a própria cantora. não por falta de potência de clara, mas por tantos motivos alheios à ela.
1966 estava no seu último fôlego antes de uma virada histórica: o tropicalismo, em 68, que foi quando o design de capa de discos atingiu realmente sua importância e liberdade criativa.
agora, a capa passava a representar uma extensão do trabalho do artista, deixando de ser uma mera proteção do produto.
esse é de 68 e sua carinha bonita já estampavam as capas. não por clara já estar reconhecida o suficiente (não estava) mas agora o tropicalismo deu um novo significado ao design das capas.
pra não ficar repetitivo, repare agora no que NÃO está mais na capa: foi com deus a fileira de logos institucionais (london, WB, capitol, etc).
a odeon ainda aparece discretamente no cantinho mas o protagonismo agora é a artista e a música, não mais a gravadora. e esse é um sinal claro de que a lógica da nova publicidade, que vimos acima, já havia se instalado de verdade.
agora o nome e o rosto da artista eram o maior ativo de venda.
e mesmo que o tropicalismo não esteja presente na capa com suas características exuberantes, isso não significa que não teve impacto, teve e muito. agora a visão estratégica é de que a capa precisa construir uma persona, não só identificar o produto.
então vimos o fluxo: artista não tem cara. aí passa a ter. em 1981, com o lp “clara” volta a não ter cara. mas tem muito de clara na capa.
esse é meu ponto favorito de todo o artigo, ganhando até mesmo da lembrança do gosto da mascate. e com ele a gente fecha tudo.
olha bem pra capa. começamos sem fotografia (o artista como um nome), partimos para a fotografia (o artista como um arquétipo feito para ser idolatrado) e….. e aqui?
aqui, a escolha é pra além: clara se DISSOLVE nos símbolos que ela representa.
quadrado rotacionado dentro da capa branca, sugere dinamismo e funciona como uma “janela aberta”. uma janela ESCANCARRADA para outro mundo: o mundo da arte, da natureza, da cultura brasileira, de clara.
o fundo de palha trançada é um símbolo do artesanato, da cultura indígena, de muitas coisas, todas elas são o universo que clara nunes havia abraçado e estudado ao longo dos anos 70.
em frente à palha, o pássaro.
colorido, vivo, vibrante. ainda que preso (ou pousado?) sobre o arame farpado.
sabemos que clara é uma devota do candomblé, sem dúvidas.
eu vi recentemente o clipe de “mandinga” da anitta, onde três mulheres aparecem como pássaros. a conexão entre pássaro e poder sagrado feminino no candomblé é viva e documentada, tá?
essas três mulheres de “mandinga” são do panteão africano: as Iyami Oxorongá.
descritas nos cultos aos iniciados como mulheres velhas, são Donas das aves, onde Elas mesmas podem se transformar em pássaros.
por isso que em todo esse universo do candomblé, o pássaro é símbolo de poder ancestral feminino.
pensei nessa associação, considerando também que em 1976 (pouquíssimo tempo antes do lp “clara” ser lançado) bethânia solta o álbum “pássaro proibido”. lembrando que bethânia também é do candomblé.
“pássaro proibido” inclui a faixa “as ayabás”, uma homenagem às orixás femininas do candomblé. a letra da música do mesmo nome do álbum, fala de um “pássaro proibido de sonhar”, mas “com o poder de voar”, que canta “sem medo do erro maldito de ser um pássaro proibido”.
e a letra revela uma semelhança siamesa à capa de “clara”: o pássaro, sendo aqui a mulher, que não tem medo de ser proibida. a mulher que dispõe de asas, mas não pode voar. que tem bico, mas só serve pra regurgitar alimento aos filhotes, nunca para cantar.
pode ser isso? pode.
mas também pode ser sobre a abertura política lenta e gradual do regime militar.
e essa visão também se sustenta, até por elifas andreato ter assinado a direção criativa da capa, em conjunto com uma grande equipe, incluindo iolanda huzak que foi creditada pela fotografia.




iolanda era a mulher de elifas e ela foi militante, ao lado dele, na ação popular contra a ditadura. em toda sua carreira, foram mais de 100 trabalhos do artista entre cartazes para peças de teatro, capas de livros, discos, revistas e de jornais da imprensa alternativa. tudo com recorte na resistência à ditadura militar.3
e um adendo legal, não diretamente ligado ao tópico, mas quem assinou tudo isso foi um cara que nunca pisou numa escola de design. elifas andreato aprendeu na editora abril, nos livros gringos, nos materiais de arte, nos processos de impressão offset.
é bacana expor isso porque o design brasileiro ainda tem um problema de casta. acadêmico olha pra autodidata com aquele ar pomposo, com suas palavras difíceis que acham que enganam malandro, como se um canudo fosse sinônimo de saber tudo, ser melhor ou estar mais preparado. elifas, que foi um artista pobre e resistente na época da ditadura, não precisou de diploma pra criar obras que quarenta anos depois ainda fazem alguém parar na frente de uma vitrine numa exposição em bh e ficar pensando.
não é uma defesa do autodidatismo como método único, mas como um método válido.
mas na verdade, eu só quis encher seu saco. a verdade por trás de tantos símbolos foi dita pela própria clara em 1981 para o jornal o dia, do rio:
“a minha missão, é cantar. muitas vezes é difícil, pois há muitas coisas que nos impedem. o pássaro representa o canto que é minha missão, o arame farpado arrebentado as dificuldades já vencidas e o que está inteiro as que estão para serem vencidas. minha mensagem é de liberdade. e por que, Clara? porque eu quero que essa mensagem seja cada vez mais clara.”
agora, como os processos manuais atravessam o tempo.
a capa é um painel têxtil que reúne trançado de palha, samambaias secas, um pássaro esculpido em penas reais e arame farpado dobrado à mão. materiais simples, que juntos atravessam mais de quatro décadas sem perder força. o lp clara carrega o resultado de uma série de decisões humanas que não podiam ser desfeitas.
principalmente quando nada disso foi gerado, foi construído. camada por camada, com a resistência da matéria como a grande narradora dessa história.
numa era em que ferramentas de inteligência artificial reproduzem em SEGUNDOS a aparência de texturas, tramas e composições orgânicas, olhar pra CLARA é analisar até compreender que a autenticidade não está no resultado, mas na trajetória.
uma I.A. pode simular o aspecto de um trançado de palha, mas não pode ter escolhido aquela samambaia específica, nem pode ter sentido o arame machucar os dedos, nem pode ter errado e decidido que o erro encaixava melhor. esse conjunto de experiências (o risco, a resistência, a decisão irrevogável) é o que confere ao processo manual uma dimensão que nenhum sistema generativo alcança.
e se alcançarem, quero que se foda também. assim, eu posso largar o design e me mudar pro interior de goiás, aprender a plantar milho e fazer parto de vacas. ou talvez me mudar pra alfenas e chamar luis pra comer um bolo de aipim.
valeu por ler até aqui, espero que tu tenhas gostado. e que te sirva pra potencializar suas criações. te amo.
https://ponteentreculturas.com.br/revista/luiz_olivieri.pdf
https://portalintercom.org.br/anais/nordeste2018/resumos/R62-0218-1.pdf
https://memorialdaresistenciasp.org.br/exposicao/elifas-andreato/





















